Sábado, Julho 4

Lacan sobre Manuel Pinho e os outros

Lacan, no Seminário III: “O sujeito normal é essencialmente alguém que se põe na atitude de não tomar a sério a maior parte do seu discurso interior. É por isso que o alienado representa para muitos, e sem que se chegue a dizê-lo, aquilo a que seríamos levados se começássemos a tomar as coisas demasiado a sério.”
Um Ministro deve ter um discurso interior de Ministro. E o Ministro exterior deve coincidir com o ministro interior. Manuel Pinho, como se sabe, passou-se. Quer dizer, foi sujeito normal por uns momentos, mas num lugar onde não podia sê-lo.
As consequências politicas não poderiam ser outras. O episódio é pedagógico, precisamente porque relembra a linha de fronteira entre política e não-política, uma fronteira que só existe na democracia, onde há lugar precisamente para o não-político, onde se sabe e se defende que os sujeitos da política têm também a sua reserva (saudável) de não-política.
É por isso que os comentários de toda a oposição, já depois do ministro demitido, me pareceram lacanianamente alienados. Reposta a dignidade política, nem uma palavra humana para aquilo que toda a gente percebeu ter sido humano, demasiado humano. Palavra que, ademais, teria sido profundamente democrática e pedagógica. Não. Apenas massacre. Sacrifício do touro.
A falta que fazem os ateus na política, quer dizer, os sujeitos normais.

Sexta-feira, Julho 3

Lugar de Estudo # 6

Chuva mansa, como a morrinha de verão sobre o mar.
Corpo sabe — tempo de ver e ouvir.

Quinta-feira, Julho 2

Vergílio, sempre

A Isabel Cristina Rodrigues é uma vergiliana errante. Não procede de um território teoricamente demarcado nem procura erguer uma leitura que persiga obsessivamente uma questão. Não é que haja mal algum em provir de uma teoria ou trabalhar uma obsessão até fazer dela a impessoalidade de uma estrutura — como em tudo na vida, e sobretudo como em tudo na vida da escrita, o que nos atrai ou afasta é aquilo que mostra capacidade de intensificar os nossos percursos de sentido. Mas feita a ressalva, dizer vergiliana errante é não apenas descrever um modo de aproximação múltiplo às obras de Vergílio, como sobretudo sublinhar uma qualidade: a deambulação ao sabor de alguns temas, feita de uma cultura discreta mas segura, mais preocupada sempre em mover o sentido do que fazer dele uma possível verdade. Percebe-se a rede de uma sensibilidade (crítica, literária, humana) e de uma voz que, lendo indubitavelmente Vergílio, chega a lugares porventura não-vergilianos, mas sempre na sua companhia. Os autores existem para isso, para nos acompanharem como batedores do sentido a lugares que nenhum de nós tinha visitado. E os leitores errantes para isso servem, para acompanharem os autores libertos de si mesmos enquanto autoridade.

Quarta-feira, Julho 1

Companhia nocturna # 62

Pela janela, o cheiro nocturno da relva cortada e molhada. Sombras afundadas de verde. Ouvir numa atenção leve, fluida, como um voo de pássaro que apenas se entregasse aos acasos da brisa. Fazer desfazer existir. Coisa próxima, doméstica, abertamente humana. Refrescou.

Aquele órgão só de professores doutores por extenso # 16

A gente ouve daqui e dali e de si próprio, e o limiar da náusea vai-nos engolindo. Fuga & queixume: é triste tanta palavra que não sabe da morte de Pina Bausch. Mas é pior, é muito pior: tanta palavra que nunca soube que Pina Bausch alguma vez existiu, que pensa como se Pina Bausch nunca tivesse movido o pensamento.

Aquele órgão só de professores doutores por extenso # 15

Sabendo-se demasiado brilhante, escolheu o silêncio por um ano.
[Claude Roy citado por EPC, Tudo o que não escrevi, p.74]

Aquele órgão só de professores doutores por extenso # 14

Ivan Brunetti, Ho!, Washington: Fantagraphics Books, 2009

E como a ti também te tinha prometido, pois aqui fica também.

Aquele órgão só de professores doutores por extenso # 13

Ivan Brunetti, Ho!, Washington: Fantagraphics Books, 2009

Tal como te tinha prometido, aqui fica.

Segunda-feira, Junho 29

Driving Miss Laura # 22

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Apresentação por António Arnaut.
30 de Junho, terça-feira. 21h15, Coimbra.
Auditório do Conselho Distrital de Coimbra da Ordem dos Advogados

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Futurível

Mais do que uma vez me lembrei dele: primeiro estranha-se, depois entranha-se. Ainda que me pareça que Pessoa nunca entranharia isto. Não? E depois? Que vem ele aqui fazer? Ah, esta minha cabeça em exames...

Fora os gatos e a poesia # 5

No que depender da boa vontade dum
filho da puta que não existe chamado
Deus
posso esquecer as tantas caras sem rosto aqui
neste inferno sem beira ou piscina de nome
subúrbio.
.........................................[Luis Maffei, Telefunken, p. 27
]

Enunciação de um deus remanescente ou das consequências bem menos remanescentes do capital — tanto dá. Somado tudo pelo inverso, para que haja algum resultado palpável, apura-se que o destino foi substituído pela benevolência de um tipo que não existe. Para dizer a verdade, eu já desconfiava. Mas a poesia, quando toca a evidência gelada, queima de forma mais definitiva.

Fora os gatos e a poesia # 4


Subsídios para uma epistemologia sexual dos géneros literários: Bethina e Beth, gatas da poesia. Salomé e Julião, gata & gato do ensaio.
Dos quatro se diz o seu silêncio. Que sabe.

Fora os gatos e a poesia # 3

A casa tinha cães e gatos em abundância e soberana indiferença. Talvez já praticassem divisão do trabalho, porque eram sempre os mesmos que vinham inspeccionar as visitas mal entravam no quintal. Gente sem interesse, a julgar pela rapidez com que os animais de distraíam com as coisas de sempre. Uma vez houve uma reunião importante. Queriam designá-lo líder. Não o conheciam por inteiro, mas já era bom que comungassem da mesma intuição sobre as suas qualidades. Os discursos sucediam-se, ele ouvia levemente distraído. Um gato veio-se-lhe aninhar no colo e ali ficou. Quando começou a ronronar, o que discursava interrompeu-se e olhou os outros. Todos concordaram em silêncio. Tinha sido grande o engano, disseram depois entre si. Aquele que dá paz aos bichos não serve para comandar as guerras dos homens. Ninguém duvidou da sentença. Houve mais reuniões, ele nunca voltou.

Fora os gatos e a poesia # 2

SEGUNDA

Assim: só o pequeno
barulho da cidade, longe
como se livre eu estivesse,
as gatas e
eu.
Existo, agora, existo neste
lugar de ver só
ver e pouco ser diante de
seres que a vida
sabem: uma come, a
outra bebe, ambas voltam ao
sofá da sala não porque estou
perto mas porque sou
pouco, faço-lhes pouco
mal, faço-lhes
ainda bem
pouco.

Assim, só as pequenas
vidas que me
ensinam o menos pois
me dizem
nada, eu e a
vista, eu desaparecido de olhar
apenas, eu
com as gatas e sem outro
mundo que me mande
olhos ou me dê vestígios, elas e o
quase
silêncio desta humilde e
própria
segunda-feira.

Luis Maffei, Telefunken, Deriva: 2009, pp. 22-23

Domingo, Junho 28

Companhia nocturna # 61

Sem cauções de revivalismo, re-escrita ou desvio imperceptível, apenas música como no antigamente, bela, sem futuro, bela como no antigamente, outrora agora.

WC Lectures # 36


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Antes fosse

Volta e meia, lá vem a frase: isso é de filme ou de romance. Ao que eu digo sempre: depende. Basicamente depende disto: se é coisa feliz, pode ser que sim, que seja só de filme ou de romance. Como se sabe, o real tem alguma felicidade, mas a felicidade não tem história; quando a ficção lá chega não há nada para contar, vai daí inventa-se — quase sempre mal. Mas se é coisa de drama ou tragédia, o real é sempre a maior surpresa. Os humanos nunca inventariam tamanha dor nem tão abundantes e estranhas loucuras para lidar com ela. Simplesmente isso existe, e os humanos não têm outro remédio senão tentar incorporá-lo no seu frágil sistema imunitário cultural. Isso é de filme ou de romance? Antes fosse, antes fosse...

Sexta-feira, Junho 26

Companhia nocturna # 60

É preciso saber esperar o tempo certo para ouvir alguns álbuns. Esperar o cansaço propício para nos rendermos a uma voz que é em si mesma um conto de fadas que ouvimos com aquele nosso sorriso adulto e o enlevo fugidio de um devaneio.

O intervalo

Por vezes a vida dispõe-se como um intervalo dentro da própria vida. O trabalho conduz-nos como bois da paciência. É só durante o sono — um sonho talvez? — que assomamos a uma varanda alta, ruas quietas aos nossos pés, um horizonte aberto face-a-face. É um amanhecer fresco num dia sem tempo. Outro tipo de intervalo, perdemo-lo quando a realidade amanhece deveras.

Quinta-feira, Junho 25

Nem gatos, nem poesia, nem companhia nocturna

apenas exames, exames, exames — e a chuva, vá lá.
Mas isto é sobre quê, exactamente?
Adiante.

Quarta-feira, Junho 24

Companhia nocturna # 59

Claro que poderia ser outra a música, mas quão certa esta pata lenta, animal semelhante e todavia calmamente diferente. Estranha guitarra, e nada mais que guitarra. Absolutamente certa com tudo o que EPC não escreveu: esse modo desarmante de acabar definitivamente com o choro de não lhe acontecer a poesia ou o romance. Poucos dobraram esse ressentimento surdo, poucos alcançaram essa soberana liberdade.

Terça-feira, Junho 23

Fora os gatos e a poesia # 1

Luís Maffei, Telefunken, Deriva, 2009

O mundo é um mundo de lugares. A lucidez — em si mesma uma forma de atenção e de acolhimento —, manda sempre perguntar de que lugar nos falam. Luís Maffei fala-nos de um lugar onde a tecnologia mais extrema não habita. Um lugar onde se dialoga com alguns clássicos e outros bem mais contemporâneos, mas sem que seja importante a autoridade, o grupo, a poética (oh, a poética...), a posteridade (oh, etc...) — em tudo isso, releva apenas o que mais nos assenta no mundo, sem a ele sucumbirmos. Um lugar que não é arcádia epigonal nem melancolia auto-contemplativa — sintoniza-se um telefunken para ouvir do mundo, com a vantagem de um telefunken ser suficientemente tecnológico para sabermos que ouvimos “demais”, e suficientemente obsoleto para sabermos que o simulacro já se mudou para outros artefactos. Um lugar onde há gatos, e os versos valem menos que os gatos, e a quietude felina admoesta a mão que escreve (melhor sentir a “prosa” de “pêlos sem metáfora ou mentira”). Um lugar onde há pessoas, crianças, amores, o deserto disso e a presença obscura disso também. Um lugar estranhamento parecido com o meu. Fora os gatos que não tenho, mas que poderia. E a poesia que nunca tive, nem poderia.

Segunda-feira, Junho 22

Companhia nocturna # 58

e a companhia de tudo o que EPC não escreveu. Há um certo mistério nas coisas que nos solicitam, uma rede difusa que nos envolve. Mas é como nestas músicas: a gente trocava-lhes os títulos e tudo continuaria cheio de sentido.

Sábado, Junho 20

Lugar de estudo # 5

A coisa material. Corpo. Mas também o ar que o atravessa. A coisa vazia que move os olhos que lêem.

Lugar de Estudo # 4

Na cave, ao abrigo do calor.
Próximo da terra. Com notícias suficientes da luz.

Quinta-feira, Junho 18

Driving Miss Laura # 21


Quinta-feira, 18 de Junho, TVI, As tardes da Júlia, entre as 14.12h e as 14.42h (dizem eles...), Laura Ferreira dos Santos sobre directivas antecipadas.


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Quarta-feira, Junho 17

Companhia nocturna # 57 / Lugar de estudo # 3



Porque, às vezes, volvido sobre as águas,
só quase de silêncio vive o estudo.

Fernando Echevarría, Lugar de Estudo, p. 49

Bastidores

O mundo é grande, já o sabemos. Não apenas no sentido de uma pluralidade interessante, mas também no de uma coexistência incontornável do mais interessante com o completamente desinteressante. Mas avancemos, que o ponto é outro.
Pelas indicações da RTP1 quando fez o convite, a Laura deveria entrar em directo por volta do meio-dia. Não entrou. Percalços próprios dos directos, só por volta das 12.40h começou a conversa sobre directivas antecipadas. Ao meio-dia, quando lá fui espreitar, estava a falar a Alexandra Solnado. Pelo que disseram à Laura nos bastidores, a Alexandra Solnado paga à RTP1 para ir ao programa debitar a sua auto-ajuda. Parece que o mesmo acontece com outras espécies aparentadas de auto-ajuda astrológica e por aí fora.
Não deixa de ser interessante: a fraude de uma publicidade completamente encapotada, que faz passar por reconhecimento público a compra desse mesmo reconhecimento; e o facto de o desinteressante ter de comprar a peso de ouro o simulacro do seu interesse. Claro que o interesse do “grande público” é real, convém não esquecê-lo, isto é apenas a simples regra de mercado: ninguém oferece tanta audiência como as televisões generalistas, e o que há mais por aí é gente a tentar auto-ajudar-nos a troco de uns parcos cobres. Os tempos são maus, é certo, mas o esforço que se tem de despender para que eles assim continuem faz pensar.

PS: dito isto, que fique claro que não ponho de todo em causa os testemunhos daqueles que dizem ter sido genuinamente ajudados pela Alexandra Solnado ou suas similares. A ignorância imensa das pessoas acerca dos seus próprios processos psicológicos mais básicos grita humanamente por ajuda quando as coisas apertam um pouco mais. Para quem não sabia ler, chegar a soletrar as “gordas” é uma conquista, e alguns equívocos silábicos não afectarão grandemente o sentido geral da coisa. De pouco vale esgrimir contra os “mestres” da auto-ajuda. “Alfabetizar” leva mais tempo, é menos espectacular na praça pública (de facto nem lá aparece), mas é o único caminho. Caminho sem fim, eu sei, mas essa é toda uma outra questão.

Companhia nocturna # 56

Felizes dos que acreditam, eu sei. Felizes dos que descrendo, te ouvem.

Terça-feira, Junho 16

Aquele órgão só de professores doutores por extenso # 12

Quando se anda em círculos, já não somos nós que mandamos, mas a situação em que nos deixámos meter.

Companhia nocturna # 55

e David Mourão-Ferreira finalmente livre de mim, e eu livre de mim enredado nele, ambos livres para elas ambas, anne-sophie e a música.

Segunda-feira, Junho 15

Persepolis queria ser verde

Subscrevo o Rui Bebiano e o Pamplinas. E agradeço o verdadeiro serviço público que o Jugular tem feito sobre o pós-eleições iranianas.

O sindicato das frases, a ordem dos argumentos e o conselho superior das estruturas lógicas # 2

Passou o camião do lixo. Respirar fundo. Continuar ainda.

Domingo, Junho 14

Driving Miss Laura # 20


Segunda-feira, 15 de Junho, RTP 1, Praça da Alegria, por volta das 11.45h, Laura Ferreira dos Santos e Daniel Serrão sobre directivas antecipadas.

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Lugar de estudo # 2

Aquele momento em que falar de outrem é a forma mais exacta de falarmos de nós mesmos. Não que o assunto sejamos nós mesmos, mas exactamente por pensarmos que estamos a falar de algo completamente distinto de nós mesmos.

Lugar de estudo # 1


Estávamos em estudo. Nele entrava
com vagares de apuro, a terra viva.
Trazia, tensa, a indefectível graça
dos animais. Trazia
gaivotas , rolas e a maré alta
duma respiração que as retinha.
E trazia um silêncio que empolgava
a abóbada celeste. Na retina
o azul estendia uma doçura larga
de onde, objectivos, os pinhais surdiam,
para reterem sobre a sua massa
o andamento tangencial da vista.
E o estudo subia. Tinha falta.
O último padrão de nostalgia
sentara tenda dentro da palavra
e era dela que também subia.

Fernando Echevarría, Lugar de Estudo, Afrontamento, 2009, p. 44

Sábado, Junho 13

A vida com árvores # 9





Chegou o verão.